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Soneto do Pedido de Inocência

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Foi um tempo que deixou muita saudade
Todos juntos brincando na calçada
O tijolo, o cachorro, a molecada,
Tão crianças, não tínhamos maldade.
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Hoje em dia é tão tudo diferente,
Que a inocência perdeu o seu sorriso,
A criança logo cresce, sem aviso,
E se torna uma vítima inocente.
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Peço a mãe de Jesus, Nossa Senhora,
Que interceda por esses pequeninos,
Pra que o tempo não pule sua aurora.
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Neste dia especial para os bambinos,
É um homem criança quem lhe implora:
Que os livre dos nossos desatinos.
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#byLupo
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Desejo que todas as crianças nunca percam sua inocência. Desejo o mesmo para os adultos.

Desistência de um Normal


Eu não sinto mais nada e sou tão pouco,
Que só vejo no mundo interferência,
Ela agride minh’alma, minha essência,
Neste mundo de sãos me sinto um louco.

E lá fora eles dançam a mesma dança,
Só mentindo saber os meus defeitos,
Tenho regras, mas não os meus direitos,
Tenho sonhos, mas não a esperança.

Eu não quero mais droga de farmácia,
Eu não quero dançar mais esta dança,
Não mais quero fingir que é natural.

Pois a droga não tem mais eficácia,
Pois a dança já está ultrapassada,
É mais fácil fugir, ser anormal.

Revisada em 04/10/2007

Comentário:

Repare nas tônicas nas 3ª, 6ª e 10ª sílabas poéticas em todos os versos. Geralmente me preocupo apenas com a 6ª e a 10ª, alternando a primeira tônica entre a 2ª e 3ª sílaba (dependendo das idéias que surgem), pois é chato ficar trabalhando o poema.

Contraditoriamente, não sinto um ritmo bacana quando leio este heróico. Isso demonstra que a poesia vem mais da alma, do momento e do sentimento do que da técnica. Os parnasianistas são mesmo uns chatos!

Vida de Ladrão


Nasci neste lugar sem fim,
Pobre, sem chão, sem mãe e sem pão.
Cresci feliz? Não!
Não tive criação,
Roubei, enganei e me droguei.

Fui espancado,
Porque num dia, extasiado, estuprei.
Porquê? Não sei.

Tive que lutar com as armas que me deram,
Me chamaram de ladrão, de mendigo!
Mas ninguém me ensinou o que é amor,
Ninguém me falou que dói muito sentir dor,
E acreditem: isso eu aprendi sozinho.

Fui preso e confessei o meu erro:
De ter nascido e não vivido.
Não que eu não queria,
Para mim, ser feliz é ousadia,
Coisa de rico, mas não rico de pão:
Rico de educação.

Revisada em 01/10/2007

Os Óculos

Eu era um par de óculos. Minha primeira lembrança é estranha: Estava eu, ao lado de muitos outros pares da minha espécie estendido em uma vitrine. Os dias passavam e vez ou outra apareciam algumas pessoas que me pegavam, colocavam no rosto, olhavam-se no espelho e... Devolviam–me para a vitrine.
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Era como uma criança que esperava adoção. Muitos dos meus amigos óculos tiveram mais sorte e foram adotados mais rapidamente. Era uma festa e uma tristeza quando um deles era escolhido. Eu rezava todos os dias para que o Deus dos óculos não se esquecesse de mim.
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Finalmente o meu dia chegou. Uma moça, muito bonita, depois de testar alguns dos meus companheiros, me escolheu. Foi o dia mais feliz da minha vida! Fui para uma sala onde um senhor barrigudo me instalou um par de lentes muito pesadas, mas era um preço mínimo a se pagar: finalmente eu iria ser usado!
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A moça veio no outro dia e nem quis que eu fosse na caixinha que me arranjaram, fui direto para o seu rosto. Saímos da loja (que era tudo o que eu conhecia até então) e vi coisas maravilhosas: Ruas, pessoas andando nas calçadas, o velocímetro de um carro, um espelho muito maior que o da loja! Conheci também um negócio quadrado chamado televisão que mostrava imagens de casais se beijando, guerras em lugares distantes, desenhos animados! Eu estava no paraíso!
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É verdade que às vezes a minha dona me esquecia em algum lugar(geralmente no canto do sofá), mas ela tinha um outro par de óculos que usava para me procurar e sempre me achava. De noite, ela me colocava ao lado deste amigo em um criado mudo para que eu ficasse conversando com ele a noite toda. Tinha muita pena dele, pois só era usado para me procurar, mas eu não tinha nem um pingo de piedade: ficava falando que ele era um inútil, e que não tinha a menor possibilidade de conhecer as coisas que eu conhecia. Apelidei-o de “modelo antigo”.
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O “modelo antigo” ficava quieto. Acho que se pudesse chorar, não pensaria duas vezes, mas como óculos que é óculos não chora, ficava lá, quieto, resignado, com suas perninhas cruzadas ao meu lado.
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Um dia minha dona pisou no “modelo antigo” e o quebrou. Coitadinho, foi direto para o lixo. Confesso que nem fiquei chateado, pois ele era um inútil mesmo! Só servia para me achar e olhe lá. Certamente a minha dona iria tomar mais cuidado comigo a partir daquele dia. No mesmo dia voltamos na loja onde eu tinha sido comprado e minha dona escolheu um novo par de óculos para substituir o “modelo antigo”. Ela me amava muito, estava preocupada em não me perder, pensava eu.
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No outro dia fomos buscar o “novo modelo antigo”, mas algo aconteceu que eu não esperava: Ao invés de colocá-lo na bolsa, ela ME colocou na bolsa. Fiquei muito chateado com essa atitude ingrata, mas achei que ela estava apenas testando o “novo modelo antigo”.
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Três dias se passaram até que finalmente minha dona se lembrou de mim e me pegou na bolsa. Fiquei tão aliviado! Fomos andando pela casa, no banheiro, no quarto, até que eu vi uma coisa que nunca mais me esquecerei: O “novo modelo antigo” estava jogado no canto do sofá, como EU costumava ficar de vez em quando! Minha dona se despiu de mim e me colocou no criado mudo, e a partir daquele dia, nunca mais me usou para sair ou mesmo para assistir a caixa quadrada. Percebi que eu tinha me tornado um “modelo antigo”. Hoje eu fico quieto, esperando o dia em que, "sem querer", ela me pise e me jogue no lixo.
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Revisada em 30/09/2007

Soneto da Rua


Perceba os detalhes desta rua:
Só há carros, barulho e fumaça,
Parados no sinal não acham graça,
Saem no pré sol, chegam no pós lua.

Fica perdido nesta confusão,
Só olhando esse povo que só passa?
Qual o destino que move essa massa?
Porque sente em seus olhos solidão?

Perceba, um pouco tarde, o motivo,
Que move só aquele que está vivo,
E deixa se levar a própria sorte:

Eles querem parar de correr tanto,
Eles querem livrar-se desse encanto,
Mas não podem! Só param com a morte!

Criada em 20/09/2007

Sertão


Trabalhando sem ter a liberdade,
Plantando o que se come na cidade,
Vivendo o que se vive com saudade,
Morrendo de velhice sem idade.

Calejadas são mãos que sem carinho,
Manejam a enxada com jeitinho,
Abrindo entre as matas o caminho,
Sentindo-se tão só sem ser sozinho.

Seu tempo nesta vida vai morrendo,
Sol-a-sol só família lhe interessa,
Que de fome ao menos não mais morre.

Este homem que parte não sabendo,
Que é tão pouca a vil terra que lhe resta,
Pouca terra honrados ossos cobre.

Revisada em 17/09/2007
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