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Momentos

Este já tem alguns anos... Apesar de depressivo, é muito bonito.
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Estou entorpecido com meus medos,
Parece-me bem grande esta loucura.
Ferimentos que estão sem ataduras
Divulgam para todos meus segredos.
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Coração que está cheio de amargura
Faz a mente pensar só nos defeitos,
Movimentos me parecem tão mais lentos,
Que o sangue não mais jorra, coagula.
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Mas se o que vejo agora é embaçado,
E a dor do corpo abranda a covardia,
E o sono que me vem não tem espinho,
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Prefiro não pensar-me neste estado,
Prefiro não negar-me a fantasia,
Prefiro até morrer, mesmo sozinho.
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#byLupo

Os Óculos

Eu era um par de óculos. Minha primeira lembrança é estranha: Estava eu, ao lado de muitos outros pares da minha espécie estendido em uma vitrine. Os dias passavam e vez ou outra apareciam algumas pessoas que me pegavam, colocavam no rosto, olhavam-se no espelho e... Devolviam–me para a vitrine.
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Era como uma criança que esperava adoção. Muitos dos meus amigos óculos tiveram mais sorte e foram adotados mais rapidamente. Era uma festa e uma tristeza quando um deles era escolhido. Eu rezava todos os dias para que o Deus dos óculos não se esquecesse de mim.
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Finalmente o meu dia chegou. Uma moça, muito bonita, depois de testar alguns dos meus companheiros, me escolheu. Foi o dia mais feliz da minha vida! Fui para uma sala onde um senhor barrigudo me instalou um par de lentes muito pesadas, mas era um preço mínimo a se pagar: finalmente eu iria ser usado!
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A moça veio no outro dia e nem quis que eu fosse na caixinha que me arranjaram, fui direto para o seu rosto. Saímos da loja (que era tudo o que eu conhecia até então) e vi coisas maravilhosas: Ruas, pessoas andando nas calçadas, o velocímetro de um carro, um espelho muito maior que o da loja! Conheci também um negócio quadrado chamado televisão que mostrava imagens de casais se beijando, guerras em lugares distantes, desenhos animados! Eu estava no paraíso!
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É verdade que às vezes a minha dona me esquecia em algum lugar(geralmente no canto do sofá), mas ela tinha um outro par de óculos que usava para me procurar e sempre me achava. De noite, ela me colocava ao lado deste amigo em um criado mudo para que eu ficasse conversando com ele a noite toda. Tinha muita pena dele, pois só era usado para me procurar, mas eu não tinha nem um pingo de piedade: ficava falando que ele era um inútil, e que não tinha a menor possibilidade de conhecer as coisas que eu conhecia. Apelidei-o de “modelo antigo”.
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O “modelo antigo” ficava quieto. Acho que se pudesse chorar, não pensaria duas vezes, mas como óculos que é óculos não chora, ficava lá, quieto, resignado, com suas perninhas cruzadas ao meu lado.
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Um dia minha dona pisou no “modelo antigo” e o quebrou. Coitadinho, foi direto para o lixo. Confesso que nem fiquei chateado, pois ele era um inútil mesmo! Só servia para me achar e olhe lá. Certamente a minha dona iria tomar mais cuidado comigo a partir daquele dia. No mesmo dia voltamos na loja onde eu tinha sido comprado e minha dona escolheu um novo par de óculos para substituir o “modelo antigo”. Ela me amava muito, estava preocupada em não me perder, pensava eu.
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No outro dia fomos buscar o “novo modelo antigo”, mas algo aconteceu que eu não esperava: Ao invés de colocá-lo na bolsa, ela ME colocou na bolsa. Fiquei muito chateado com essa atitude ingrata, mas achei que ela estava apenas testando o “novo modelo antigo”.
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Três dias se passaram até que finalmente minha dona se lembrou de mim e me pegou na bolsa. Fiquei tão aliviado! Fomos andando pela casa, no banheiro, no quarto, até que eu vi uma coisa que nunca mais me esquecerei: O “novo modelo antigo” estava jogado no canto do sofá, como EU costumava ficar de vez em quando! Minha dona se despiu de mim e me colocou no criado mudo, e a partir daquele dia, nunca mais me usou para sair ou mesmo para assistir a caixa quadrada. Percebi que eu tinha me tornado um “modelo antigo”. Hoje eu fico quieto, esperando o dia em que, "sem querer", ela me pise e me jogue no lixo.
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Revisada em 30/09/2007

Soneto a Porot


Prazer, Hastings meu nome, e lhe digo,
Que fazer, se algo tenho de valia,
É contar minha história e a fantasia,
Que vivi com um pequeno grande amigo.

Sua cabeça, um ovo, era brilhante,
A simetria a base do seu mundo,
Via do pouco - que coisa! - quase tudo,
E o olhar era muito cativante.

Foram muitas as nossas aventuras,
Mas em Styles, a coisa se complica
Pois foi lá que vivi maior engano:

Neste caso, sem medo ou amarguras,
Que Poirot encontrou o fim da vida,
E no final, só me disse: "caia o pano".

Revisada em 27/09/2007

Comentário:

Soneto em homenagem ao principal personagem de Agatha Christie. "Cai o Pano" é um dos seus melhores livros, mas muitos adoradores da autora se recusam a lê-lo por saberem que ele narra o úiltimo caso do detetive belga Poirot. Recomendo a leitura para todos que gostam do gênero e que já leram pelo menos meia dúzia de livros com o personagem.

Soneto da Rua


Perceba os detalhes desta rua:
Só há carros, barulho e fumaça,
Parados no sinal não acham graça,
Saem no pré sol, chegam no pós lua.

Fica perdido nesta confusão,
Só olhando esse povo que só passa?
Qual o destino que move essa massa?
Porque sente em seus olhos solidão?

Perceba, um pouco tarde, o motivo,
Que move só aquele que está vivo,
E deixa se levar a própria sorte:

Eles querem parar de correr tanto,
Eles querem livrar-se desse encanto,
Mas não podem! Só param com a morte!

Criada em 20/09/2007

Choro da Vida


Choro de bebê não é molhado:
Ele quer carinho, quer cuidado!
A mãe jovem apavora,
E o pai não vai embora,
Enquanto o filho chora.

No choro da criança,
Sua manha é esperança.
Ou quem sabe um machucado?
Que dói, curativo, esparadrapo...
Menino levado e um pouquinho mimado.

O jovem chora - primeiro amor.
O mundo acaba de tão grande dor!
A menina o deixa envergonhado,
Ela é linda, mas seu orgulho, insensato.
Não o quer por namorado.

Cresce o jovem que não sente,
Que trabalha e cujo tempo é agora.
Ele estuda, ele aprende,
E aos poucos compreende,
Que homem, também chora.

Nasce o filho tão amado,
Sentimento complicado...
De seu amor ganha um presente,
E num beijo no rebento sorridente,
Chora sem nem saber o que ele sente.

Aprendendo e ensinando,
Enlouquecendo e amando,
Envelhece, pois o tempo nunca para.
Adoece a doença que não sara,
E chora de amor. Mas a morte encara.
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